Presença de aliados do presidente e ausência de governadores dão tom político à visita de Bolsonaro ao Ceará

Era natural que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se cercasse de aliados no evento que inaugurou as obras da transposição das águas do rio São Francisco nesta sexta-feira, 26, no trecho que corta o município de Penaforte, a 552 km de Fortaleza.

Estavam lá os deputados federais cearenses Capitão Wagner (Pros), Jaziel Pereira (PL), Pedro Bezerra (PTB), Domingos Neto (PSD) e os tucanos Danilo Forte (PSDB) e Roberto Pessoa, que se licenciou do mandato.

Do grupo, ao menos dois são pré-candidatos a prefeituras: Wagner e Pessoa. Neto, embora não postulante, é filho de Patrícia Aguiar, deputada estadual e concorrente ao comando de Tauá.

Bezerra é filho de Arnon, com quem divide, além do sobrenome, o domicílio partidário. Foi o pai quem recepcionou o presidente no aeroporto de Juazeiro do Norte.

Em conjunto, esses parlamentares representam partidos do “centrão”, um bloco heterogêneo de congressistas cujos interesses vêm sendo atendidos pelo Governo Federal em troca de proteção contra um eventual processo de impeachment. Mas questões locais também pesam nessa hora.

Sob pressão da Assembleia Legislativa (AL-CE), que pode suspender o seu mandato tão logo retome as atividades presenciais, o deputado estadual André Fernandes, ainda no PSL, não desgrudou do presidente.

Havia motivos: o pesselista mobiliza o “exército’ bolsonarista para apoiá-lo na campanha que tenta emplacar a narrativa de que é um perseguido político. Precisa, então, municiar os aliados, e nisso Bolsonaro é peça fundamental.

Colega de Fernandes no Legislativo cearense, dra. Silvana (PL) gravou vídeos ao lado do chefe do Executivo. Sem planos de disputar eleições em 2020, ela e o marido, Jaziel, tentam se cacifar para pleitos futuros, fortalecendo suas bases no eleitorado religioso.

Também deputado estadual, Delegado Cavalcante (PSL) é um bolsonarista de primeira hora que, mesmo sem pretensão de entrar em disputas neste momento, está de olho em segurar-se na cadeira em 2022.

Dessa base eleitoral e ideológica, apenas uma baixa: a de Heitor Freire, presidente do PSL no Ceará. Hoje desafeto de Fernandes e Cavalcante, coleciona adversários à direita e à extrema-direita.

Fora desse espectro, duas ausências foram eloquentes, como se sabe: a dos governadores Camilo Santana (PT) e Paulo Câmara (PSB), cujos estados (Ceará e Pernambuco) são diretamente beneficiados pela conclusão dos trabalhos, iniciados ainda no governo Lula.

Nas rodas que se formaram ali, o gesto foi muito criticado. Cobrou-se dos gestores o que normalmente se exige de Bolsonaro: respeito à liturgia dos cargos.

Sem qualquer outra autoridade por perto, além de ministros e dele mesmo, já que nenhum prefeito da região do Cariri foi ao local, coube a Bolsonaro o papel de carimbar o encerramento de uma obra de mais de dez anos e quase R$ 12 bilhões investidos.

Foi o que o presidente fez, e fez a seu estilo. Evitando a imprensa, que o esperava sob uma tenda debaixo do sol do semiárido, o ex-militar acionou as comportas e seguiu para o reservatório de Penaforte, onde aguardou as águas chegarem ralas.

Depois, entrou no carro e só parou novamente para confraternizar com apoiadores, antes de embarcar no avião de volta para Brasília.

Nesse percurso, não precisou responder uma única vez a perguntas que o incomodassem sobre temas espinhosos, como a prisão de Fabrício Queiroz.

Preferiu deixar-se fotografar e ouvir o que os tantos deputados do Ceará tinham para lhe dizer ou oferecer, como o isopor com a manta de carneiro que Domingos Neto entregou em mãos, ainda no aeroporto.

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