Em apenas um mês BH recebeu chuva de um ano inteiro

Fenômeno raro que dificulta a previsão exata do volume de chuva que cairá em determinado lugar, o cavado, de acordo com meteorologistas, é a causa da inundação de vários bairros de Belo Horizonte na noite de terça-feira (28). Considerado incomum em Minas Gerais, o evento atmosférico ocorre devido à ondulação no fluxo de ventos em vários sentidos junto de corredores de umidade (as zonas de convergência). Isso resulta em temporais que transformam ruas e avenidas em “rios”. A dois dias de acabar, janeiro já registrou volume de chuva (932,3 milímetros) quase igual àquele que caiu na capital mineira em todo o ano de 2019 (986,6 milímetros). Foi o início de ano mais chuvoso da história da capital desde o início das medições, há 110 anos.

“Na noite de terça-feira, tivemos o cavado atuando na capital e atingindo vários bairros. Um evento raro, muito parecido com a frente fria, só que não provoca queda de temperatura. Ele pode ser explicado pela alta umidade devido às chuvas das últimas semanas e ao aumento da temperatura do ar, que subiu rapidamente. Tivemos umidade acima de 60% e temperatura de 31,2 graus. O cavado é como se fosse a canalização de toda a umidade que vem do Oceano Atlântico, formando um corredor de nuvens muito carregadas em várias alturas atmosféricas”, explica o meteorologista Ruibran dos Reis. Segundo ele, o sistema continuará atuando no estado pelo menos até o fim desta semana.

Recorde

O meteorologista compara o alto volume de chuvas deste mês com aquele observado no início de 1985, quando foram registrados 850,3 milímetros na capital. “Ao longo das últimas décadas, tivemos alguns janeiros chuvosos parecidos com este. Foi o caso de 1985 e 2003, quando registramos 781,3 milímetros. Naquele ano, tivemos o dia mais chuvoso de BH. Isso ocorreu em 16 de janeiro, que recebeu 217,5 milímetros de água”, conta Ruibran. De acordo com a Defesa Civil da capital, a média para o mês de janeiro na cidade é de 329,1 milímetros.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

Especialistas alertam que fevereiro também será chuvoso, com possibilidade de novas tempestades na capital e em outras cidades. “Devido à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que vem atuando desde o início do ano, a previsão é de mais um período com alto volume de chuva”, afirma Ruibran.

Em comparação com janeiro de 2019, o volume de chuvas deste mês foi 10 vezes maior na capital mineira. O meteorologista da Somar, Celso de Oliveira, explica a atuação do cavado recorrendo à imagem de ondas formadas na atmosfera.

“Verdadeiras ondas circulam no ar, exatamente como nos oceanos. Não podemos enxergá-las, porque são transparentes e invisíveis, mas elas vão transitando de uma região para outra, acumulando umidade”, compara.

O meteorologista lembra que o grande fluxo de umidade vindo do Oceano Atlântico já é conhecido pelos especialistas. Dessa forma, tempestades são esperadas de tempos em tempos.

“Apesar dos problemas enormes deste ano, até o final da década passada, no início dos anos 2000, episódios de chuvas extremas eram muito comuns. Há 20 anos, o que discutíamos não era se teríamos chuva extrema, mas quando e onde ela cairia. Às vezes, a região atingida era o Espírito Santo, outras vezes Minas Gerais, de vez em quando o Rio de Janeiro, e, mais esporadicamente, o Sul da Bahia”, explica Celso de Oliveira.

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