Com onze casos, sesa estuda cancelar internações eletivas para priorizar tratamento de coronavírus

Com 11 casos de coronavírus confirmados, até o fim de tarde de ontem (17), no Ceará pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), o Governo do Estado, segundo o titular da Sesa, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, Dr. Cabeto, tem estudado medidas para garantir assistência hospitalar no agravamento da situação.

A projeção do secretário é que no pico de casos, o Ceará tenha cerca de 10 mil pessoas contaminadas. Desse total, a estimativa é que 10% demandariam internações que para serem garantidas é preciso alterar a estrutura de leitos cujo déficit é um problema histórico.

O secretário da Saúde, em entrevista ao SVM, explica que o Estado deverá adotar a estratégia de reduzir internações eletivas e transferir procedimentos. Isso, na tentativa de deixar vagas específicas para os pacientes contaminados pela Covid-19.

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Como está, neste momento, a situação do Ceará com casos já confirmados e outros inúmeros suspeitos?

Nesse momento, temos muitas outras viroses em circulação. Há uma confusão grande porque o volume de pessoas com infecção respiratória é muito grande. Acho que agora é um momento crucial. Acho que a grande dificuldade dessa pandemia de coronavírus é exatamente o desafio de você saber o que você vai causar de prejuízo social e econômico porque as repercussões vão ser notadas. Há uma expectativa de redução de 20% a 25% de arrecadação do Estado. A quantidade de desemprego a gente não vai saber mensurar. É tudo, salão, restaurante, loja… No caso de coronavírus, estamos prevendo que esses casos aumentem. Mas a ideia é que a gente trabalhe para que não façamos um pico alto precoce de casos. Nós sabemos que vai aumentar, mas o grande desafio é ter um aumento paulatino para que a gente não sobrecarregue o sistema de saúde e que a gente possa ter um atendimento de boa qualidade.

Como estão as pessoas com os casos confirmados?

Eles estão bem (Cabeto fala sobre as noves pessoas com casos confirmados até a última segunda-feira). Varia, mas a maioria tem acima de 57 anos. Ou viajaram para o exterior ou tiveram contato imediato com quem viajou para o exterior. A doença está sob controle. Eles têm outras doenças, com variação de gravidade. Mas, é um perfil que temos que estar atentos principalmente os com mais de 80 anos. (O boletim mais recente divulgado ontem (17) aponta que dos 11 casos confirmados, 3 têm mais de 70 anos).

O senhor acredita que a gente pode chegar a ter quantos casos no Estado?

É difícil especular porque esse vírus tem características diferentes. Em geral, temos 100 mil casos de gripes no Ceará, por ano. Se a gente acreditar que vamos ter 10% a gente pode está falando de 10 mil casos. É uma expectativa, apenas. É preciso estar preparado para o cenário pior, para que a gente possa receber principalmente os doentes graves. Sei que o momento é difícil e dizer para as pessoas terem calma não é muito fácil, mas é fundamental que se entenda que próximo de 90% das pessoas vão ter casos muito leves e que o sistema de saúde precisa focar nos 10%. Saber quem corre risco é fundamental. Se você tem mais de 60 anos e tem doenças, se você tem doença autoimune, se você tem mais de 80 anos… Esses pacientes precisam ser atendidos. O restante da população que tem sintomas gripais comuns, que não tem contato com quem tem coronavírus, essas pessoas não precisam de atendimento hospitalar. Muito pelo contrário. Se essas pessoas vão ao ambiente hospitalar, passam a correr risco de contaminação.

Do jeito que está sendo estruturada a rede de saúde, vai dar conta?

Vai ser preciso uma organização muito grande. Nós sabemos que temos uma rede hospitalar tanto pública como privada, no limite. Para que isso seja feito, nós estamos estruturando, fazendo escala dupla nos hospitais. Nós estamos alugando leitos de UTI para suprir até 600 novos leitos. Para que a gente possa dar resposta.

Por enquanto, os casos se concentram na Capital e na RMF. Vai chegar no interior?

Não acho que demore. Vamos fazer tudo para retardar isso. Mas esse vírus tem alta probabilidade de contágio. Então, enquanto você está dando o diagnóstico de uma pessoa, essa pessoa já tem três a cinco contaminados. É muito importante estar atento a isso. Não se trata de estabelecer pânico, mas é fundamental que a gente não seja pego de surpresa e passemos a viver situações catastróficas como estamos vendo em outros países. Tem quase dois meses que estamos quase que diariamente falando com prefeitos do interior mas sabemos das condições. Nós pegamos nossos hospitais regionais que são os maiores, estamos falando de 300 leitos em cada hospital (Sertão Central, Norte e Sul) e teremos, pelo menos, 200 leitos extras nessas unidades. Além disso, o Estado já vem fazendo, e devemos apressar construções para inaugurarmos UTI em Tauá, Crateús, Tianguá, Itapipoca e Iguatu, com 10 leitos de UTI em cada um desses. Dentro dos hospitais polos.

Quando chegar ao interior, sabemos do déficit histórico de leitos. Como fica a situação?

No Ceará, o déficit de leitos é grande, mas principalmente na Região Metropolitana. No interior, temos hospitais regionais que nós vamos gerar 200 leitos extras para atendimentos complexos. Vamos conversar com os prefeitos. Temos capacidade ociosa nos hospitais, polos. Estamos trabalhando desde 2019, a descentralização desses pacientes. Estrutura essas unidades para que elas preencham o perfil adequado. Muitos desses hospitais estão subutilizados e podem colaborar nesse momento de crise.

E o Hospital Leonardo da Vinci em Fortaleza?

Nós vamos trabalhar com 230. A priori, vamos montar 30 leitos de UTI, mas vamos ter estrutura para chegar a 100 leitos. É um hospital porta fechada porque nossa ideia é que de todos os casos atendidos nas outras unidades, a gente concentre nele. Paulatinamente, é que a gente faz atendimento exclusivo em algumas unidades. Temos hoje seis UPAs que estão atendendo e o São José para casos mais críticos. Vamos trabalhar também com unidades fazendo mudança de perfil hospitalar. Unidade nossa que tem UTI e podemos mudar o perfil delas.

Tipo usar o HGF?

No HGF, vamos reduzir, no momento exato, as internações eletivas, menos complexas que não tem câncer, não precisa de cirurgia urgente. Nossa ideia é adiar e corrigir em mutirões, nos fins de semana. HGF, Waldemar Alcântara, César Cals, Hospital de Messejana. Todas as unidades de saúde mais os hospitais regionais.

E há perspectivas de requisitar outros hospitais?

Existem alguns hospitais que podem ser usados e eu estou visitando. O PSA (Pronto Socorro de Acidentados), o Hospital da Polícia, que tem pouco uso… Mas a grande estratégia é você reduzir atendimento eletivo, transfere de um hospital para o outro e pega um e coloca específico para coronavírus. Para não contaminar. Porque a contaminação dentro de hospital é de 40% a 60%.

Como devem proceder as pessoas que têm plano de saúde?

É fundamental: a gente só faz exame em caso suspeito. Quem teve contato com uma pessoa que tem coronavírus, pessoas que tenham viajado para São Paulo, Rio de Janeiro (estados com transmissão comunitária), feito viagem para outros países e pessoas que tenham sintomas graves. Essas pessoas têm perfil para ser realizado o exame. Se você tem convênio, é preciso procurar hospitais particulares.

Na época do surto de zika vírus, o Governo chegou a distribuir repelente para grávidas. Existe alguma ideia de distribuição de álcool em gel?

Nós estamos nos reunindo com as universidades estadual e federal para a produção de álcool em geral. Estamos fazendo um levantamento das unidades que produzem isso ou que vendem esse tipo de material para que não haja nem estoque, nem elevação de preços exorbitantes. Estamos falando em um momento que a questão financeira vai ter um impacto enorme sobre as pessoas. Sobre as famílias, sobre o Estado. Nós estamos hoje fazendo um levantamento para que tenhamos isso (distribuição de álcool em gel) em todo o espaço público.

E a ampliação do número de médicos?

Estamos chamando um grupo de médicos que possam aumentar a carga horária. Porém, o mais importante, são as pessoas que tenham capacidade de duplicar a carga horária neste momento de crise.

E no caso de pessoas que moram juntas em assentamentos precários, onde não é possível garantir o isolamento? Haverá algum local onde as pessoas possam passar a quarentena?

Estamos estudando isso. Por isso, esse esforço intenso de fazer autoisolamento. Pessoas de maior risco, principalmente. Para que a gente reduza essa possibilidade. É fundamental que a gente evite ou reduza o número de casos. E também começamos a discutir o setor de planejamento, como fazer esse isolamento em caso de situações de assentamentos precários. Disponibilizar locais públicos para que possamos fazer o isolamento das pessoas mais frágeis.

Uma das grandes questões é a do respirador. Existem quantos no Estado?

Em geral, se conta os respiradores pelo número de leitos de UTI. Estamos aí falando de mil leitos de UTI com respirador. Nós estamos fazendo a aquisição hoje de 120 e até abril fazer mais 600. Vamos duplicar a capacidade de respiradores para que possamos atender de forma adequada.

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