Ceará não tem registro de mortes de profissionais da saúde há quase um mês

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lançou ontem a campanha “Valorize o Essencial”, que tem como objetivo combater a estigmatização e fomentar o respeito e o apoio às mulheres e homens que estão trabalhando na pandemia. Segundo dados do Ministério da Saúde publicados no início deste mês, 232.992 profissionais de saúde foram diagnosticados com coronavírus e 196 morreram oficialmente por Covid-19 no Brasil. No Ceará, de acordo com informações atualizadas na tarde de ontem pela plataforma IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), 14.659 receberam resultado positivo e 24 morreram desde abril, com o último registro de óbito feito no dia 14 de julho. No entanto, apesar de trabalharem salvando vidas, muitos sofrem com o preconceito e a estigmatização.

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“A campanha que lançamos tem como objetivo reconhecer e valorizar os profissionais não só da saúde, mas também da assistência social e educação no setor da saúde, ainda que estes estejam menos expostos. Trabalhamos em duas vertentes: junto aos profissionais e gestores municipais e estaduais, dando orientações para reduzir a tensão e o estresse neste momento tão difícil. A outra vertente é a atuação com a população. Infelizmente, temos recebidos vários relatos de profissionais que são xingados na rua e até agredidos só porque trabalham em hospitais”, afirma Lívia Schunk, responsável técnica do programa Acesso Mais Seguro para Serviços Públicos Essenciais do CICV.

“Felizmente, aqui no Ceará, não tivemos conhecimento de profissional de saúde agredido por trabalhar na pandemia. Mas nossa categoria é, sem dúvida, a que mais tem adoecido e morrido”, indica Ana Paula Lemos, presidente interina do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE). Segundo informações do IntegraSUS, dos 24 profissionais que morreram de Covid-19, oito eram enfermeiros e três, auxiliares e técnicos de enfermagem.

“O motivo é porque estamos em maior número dentro das equipes de saúde – no Ceará, somos de 75% a 80% da força de trabalho da saúde. Outro fator é que somos a categoria que fica ‘beira-leito’ com o paciente. É diferente do médico, que faz a avaliação de um paciente internado mas não precisa estar ao lado dele o tempo todo. Quem faz a assistência é a equipe de enfermagem, o que acaba a vulnerabilizando. E finalmente, há o fato das equipes estarem sobrecarregadas em longos plantões”, enumera.

A técnica de enfermagem Kacia Medeiros, 39, deixou de trabalhar depois de perder o marido para a doença. Francisco Cesar Bernardo da Silva tinha 51 anos e era maqueiro no Instituto Dr. José Frota (IJF). “Ele foi um dos primeiros a morrer de Covid-19. A morte dele repercutiu muito na mídia – inclusive teve gente no hospital que deu entrevista dizendo que ele não queria usar máscara e por causa disso pegou. Mas ele se protegia, sim. Só que ele dava muitos plantões, vivia no hospital. Dizia que não queria deixar os colegas sobrecarregados. Em uma dessas horas, ele pode ter pego, talvez do primeiro paciente que chegou lá. Vai saber. Resta agora só a dor e a revolta”, lamenta.

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