Câmara de Uruburetama cassa mandato do prefeito afastado José Hilson de Paiva

A instabilidade política instalada em Uruburetama desde julho deste ano deu trégua ontem, ao menos por algumas horas, na avaliação de moradores do município que clamam por justiça. Durante a sessão da Câmara Municipal, era possível observar o sentimento de vitória nos rostos e nas palmas dos populares que acompanhavam a votação da cassação do mandato do ex-prefeito José Hilson de Paiva, conhecido como Dr. Hilson.

Afastado desde 15 de julho deste ano, ele perdeu o cargo ontem, em decisão unânime, por infração político-administrativa. Onze vereadores participaram da sessão, sendo dois suplentes. A determinação, no entanto, não agradou à defesa, que questiona a legalidade do rito e deve recorrer da decisão na Justiça.

No comando interino da Prefeitura de Uruburetama desde que José Hilson foi obrigado a deixar as funções do Executivo Municipal, o vice-refeito, Artur Wagner Vasconcelos Nery (PCdoB), é efetivado no cargo com a cassação. Ele revela querer retomar uma imagem positiva da cidade.

“Nós queremos ter orgulho do nosso município como tínhamos antes, que é uma terra boa. Vamos trabalhar com honestidade e seriedade em benefício de Uruburetama”, afirmou. O processo de cassação contra José Hilson foi aberto após a revelação, pelo Sistema Verdes Mares, em julho, de abusos sexuais e estupros praticados pelo ex-prefeito contra pacientes enquanto atuava como médico ginecologista nos municípios de Cruz e Uruburetama, de 1986 a 2018.

A imprensa exibiu trechos de vídeos, feitos pelo próprio médico, que mostravam os crimes, além de denúncias de vítimas. O material foi obtido com exclusividade pelo Sistema Verdes Mares – 63 vídeos de abusos sexuais e estupros contra 23 mulheres.

As primeiras denúncias contra José Hilson datam de 1986. Em 1994, outras duas mulheres também o denunciaram. Os casos, no entanto, não avançaram e foram arquivados. Em 2018, outras mulheres voltaram a denunciar o prefeito cassado. As investigações, todavia, começaram a ter andamento mais célere neste ano, o que levou, inclusive, o gestor à prisão, onde se encontra até hoje.

Após os casos ganharem ampla repercussão pela imprensa, outras vítimas procuraram a Polícia para denunciar o prefeito cassado. Antes do escândalo, José Hilson tinha oito vereadores aliados. Atualmente, ninguém mais se declara do grupo político dele.

Arrependimento

Um dos antigos aliados do prefeito cassado, o vereador Ricardo Barroso declarou, durante a sessão, estar arrependido de decisões tomadas quando fazia parte da base da gestão de José Hilson. Em 2018, por exemplo, ele estava à frente da Câmara Municipal quando recebeu a primeira denúncia de escândalo sexual envolvendo o médico. À época, Barroso negligenciou e a Casa nem sequer abriu investigação. Ontem, no entanto, o vereador pediu desculpas às vítimas do prefeito cassado e disse estar envergonhado por não ter acreditado na denúncia.

“A gente acreditava muito nele, era um médico muito renomado na cidade. De repente, chegam a público esses vídeos. E contra fatos não há argumentos. Então, vem um sentimento de decepção, porque a gente acreditava muito nele. Nos frustrou. E poderia ter acontecido isso com qualquer pessoa, com alguém da minha família”, argumentou.

Questionado sobre por que não ter levado a denúncia da vítima em 2018 adiante, ele disse que os vídeos que chegaram até o seu conhecimento demonstravam atos consensuais. Além disso, acrescentou que a maioria dos vereadores não acatou a denúncia à época. “Foi apenas com esses novos vídeos que nós tivemos certeza que aquilo que era falado na época era verdade”.

Sentimento de justiça

Uma das vítimas de José Hilson, cujo nome é preservado pela reportagem, acompanhou a sessão e disse que sentiu um pouco de “justiça” na decisão da Câmara. Ela relatou, inclusive, que quando denunciou os abusos e estupros em 2018 à Casa, não foi levada a sério, tendo sido desacreditada e agredida com “palavras e empurrões”.

“A verdade apareceu e graças a Deus a justiça está sendo feita. Estou de alma lavada. Há um ano, quando foi feita a denúncia, vários vereadores não acreditaram em mim, me expulsaram da Câmara”.

Ela acrescentou, também, que apenas um vereador, da base do prefeito, a defendeu. “Ele disse que ia honrar os votos que foram dados a ele, e agradeço demais, enquanto outros preferiram ficar do lado do prefeito”, finalizou.

Defesa alega irregularidades

A defesa de José Hilson Paiva informou, por meio de nota, que tomou conhecimento pela imprensa do resultado da sessão de ontem da Câmara Municipal de Uruburetama, onde foi votada a cassação do prefeito afastado.

Diz, ainda, que irá recorrer da decisão na Justiça comum, tendo em vista todas as “nulidades e irregularidades” ocorridas durante o curso do processo administrativo.

De acordo com o advogado Eugênio Vasques, que defende José Hilson, a decisão poderá ser anulada por não ter sido cumprido o prazo determinado pela legislação para a conclusão do processo de cassação. “O processo administrativo já ultrapassou o prazo legal de 90 dias para conclusão, o que, por si só, torna sem efeito qualquer ato posterior”, afirma Eugênio Vasques.

O advogado também argumenta que a defesa não foi notificada dentro do prazo de 24 horas úteis anteriores à sessão, como estipula a legislação. “Nós fomos notificados às 21h25 (da sexta), após o prazo estipulado de 9h, ou seja menos de 24 horas antes da sessão marcada para as 9 horas desta segunda-feira”.

Em resposta, a presidente da Câmara, vereadora Maristela Rocha, disse que a defesa “vem procurando um erro para anular a sessão do Legislativo”.

Substituição

Na sessão de ontem da Câmara de Uruburetama, dois vereadores foram substituídos pelos suplentes por questões éticas, por conta de laços familiares com representantes políticos da região. Foram eles: Alexandre Nery, filho do então prefeito interino Artur Nery; e Cristiane Paiva, sobrinha de José Hilson de Paiva.

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